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Por: Eliana Rezende

Gosto sempre de incentivar as pessoas interdisciplinarmente. Não creio num mundo compartimentado, creio num mundo que integre vários modos de pensar!

É este novo mundo que se descortina para nós. Buscar conexões possíveis entre áreas e manter o espírito aberto para dialogar é o que nos deve manter.

Sempre digo que nesta seara falo não como uma especialista, mas antes de tudo, como uma observadora.

Em teoria as pessoas “decoram” tudo corretamente.
Mas me aflige o caldo de confusões que muitos cometem “tentando”. Também me aflige a confusão que muitos fazem de gestão de conhecimento com ferramentas tecnológicas.
Este talvez seja o mais crasso de todos.
Não se lida com intangíveis com um pensamento que vem de forma binária.

Eu própria tenho minhas reservas até mesmo em relação ao termo “Gestão do Conhecimento”, e considero que em geral somos capazes de fato de gerir informação. Não há como gerir o que seja alheio ao indivíduo. Acho que prefiro a expressão “Gestão de Informação para a produção de Conhecimento”.
Eu sei, eu sei que este termo não existe nos meios corporativos e que em uso é o Gestão de Conhecimento. Mas abstraindo-me de tudo isso, lanço a discussão por crer que toca a todos os que lidam com informação sem distinção, direta ou perpendicularmente.

Sou uma humanista. Apenas e tão somente… por isto, tantos temas e inquietações. A possibilidade de aprender com outros e dividir prismas é o meu objetivo. E num tema como este não poderia ter outro olhar.

Percebo como necessária esta forma de ver e conceber empresas que estão aprendendo a gerir seu capital intelectual. Isso é bastante significativo quando pensamos que cada vez mais lidamos com massas de informações que podem ou não gerar conhecimento e inovação e que em boa parte dos casos podem estar retidas também em formas de experiências profissionais de cada um.

Gosto sempre de frisar isso, pois na minha concepção o Conhecimento não é algo que preexiste em algum lugar e simplesmente o tomamos. Considero-o como o produto de uma ação consciente e pontual em transformar informação em algo mais. É uma ação consciente que parte de um indivíduo e de seu repertório. Repertório este alimentado por toda a gama de experiências que possa ter.

Como forma de esclarecer isto, sugiro a observação atenta da apresentação abaixo:

Tomando-se esta perspectiva não acredito que atores extrínsecos ao indivíduo possam gerir aquilo que é de sua absoluta competência. Por isso, não gosto da expressão Gestão de Conhecimento. Como dito acima, podemos sim ter agentes facilitadores para que a Informação circule e gere novas possibilidades de produção de conhecimento, criação e inovação.

Por outro lado, o professor W. Jones, da University of Washington, USA alega que a definição deste profissional é uma tarefa difícil. Ele indica isso fortemente em um artigo recente (e que você pode ler a seguir), de nome: “Nenhum conhecimento existe sem uma informação” (http://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/3062/2600)

Por isso, a importância não apenas de produzir informações, mas essencialmente de distribuir criativamente o que se tem e manter uma inquietação necessária aos constantes acréscimos.

Questões sobre como oferecer o ambiente propicio para que tal ciclo virtuoso ocorra é um dos desafios das instituições. Não basta ter planos, estratégias, metas bem traçadas e delineadas, índices de performance (KPI) se no seu corpo faltarem profissionais com tal espírito compartilhador e interdisciplinar. Sob esta ótica, é preciso não de “tarefeiros”, meros executores, cumpridores de metas e afins, mas antes de tudo são necessárias pessoas com a capacidade de engendrar e compartilhar… com espírito colaborativo e motivador da criatividade e Inteligência própria e alheias.

Usualmente os gestores de conhecimento vêm de disciplinas variadas. Dependendo muito da cultura organizacional são engenheiros ou administradores e, recentemente, até gestores de TI que são chamados para ocupar e exercer esta função. Mas nada impede que sejamos cria de outras disciplinas, às vezes isto até ajuda.

A função do Gestor de Conhecimento vai muito além da disponibilização de informação, do mapeamento e catalogação. Necessariamente vai além de ferramentas tecnológicas ou processos desenhados desta ou daquela forma com receitas prévias.
Essas são funções que preexistem e fazem parte das rotinas institucionais, mas não encerra suas funções. O olhar do Gestor de Conhecimento sob esse aspecto deveria ser muito mais holístico e abrangente do que tais funções.

Não creio em receitas prontas, e muito menos daquelas que seguem em listas com os 10 pontos…os 6 ou os 5 pontos… Isso não existe!
Acho que o primeiro passo efetivo a ser dado é reconhecer que as receitas não servem à pessoas! São eficientes na culinária! E dependendo de quem as faz ainda podem dar errado só com perdas de ingredientes. A metáfora aqui é excelente: já que uma empresa pode ter ali todos os ingredientes que resultarão em algo muito bom, mas se o profissional responsável em conduzir o processo não tem esse cabedal, tudo se perde.

Acredito sim, que pessoas com o perfil citado acima, e que tenham um bom repertório intelectual, metodológico, amplamente experienciado em suas vivências profissionais terão maiores chances de êxito, apenas e tão somente isso.

Imponderáveis poderão ocorrer quando o mesmo indivíduo estiver submetido à diferentes grupos de indivíduos e/ou instituições. O mesmo profissional terá resultados diversos de acordo com o ambiente e a cultura organizacional em que estiver inserido.

Creio sim em lapidação! E esta, precisa e deve, ser feita. Reside aqui uma característica importantíssima: o candidato a Gestor de Conhecimento deve ter antes de tudo essa humildade de entender que sempre estará aprendendo e assimilando coisas. Nunca poderá ter a atitude presunçosa de achar que sabe o suficiente e que seu papel seja só ensinar. Será um eterno aprendiz… e aceitará isso.

De novo insisto que a questão da interdisciplinaridade me seduz e não consigo pensar em trabalho que não seja assim, em especial quando envolve um grupo. Gosto dos grupos e das possibilidades advindas por múltiplos olhares. Em minha experiência, vejo a necessidade de muita flexibilidade, é um esforço pessoal, mas sinto-me recompensada. Preciso lidar com pessoas de diferentes áreas e formações para que juntos possamos construir na instituição as normas, procedimentos e ações em torno da Gestão da Informação.

No desempenho desta atividade, noto que o grande hiato entre diferentes áreas é a segmentação e, destarte, a dificuldade de interlocução. As pessoas costumam estar sempre muito voltadas para o seu “centro” e desperdiçam oportunidades de ver o que está ao seu redor, ou mesmo mais além.

Creio que neste ponto a metáfora que se adequa é a do fazedor de pontes… Não devem haver muros e divisões e acho salutar que as fronteiras sejam movediças e todos troquem suas fontes e aprendam com a flexibilidade.
Essa é uma característica muito importante a ser desenvolvida.

Dito isto, e retomando a nossa questão inicial de: qual é o perfil desse profissional Gestor de Conhecimento, segundo a minha perspectiva?

Vejamos:

Tal profissional deve se capaz de aceitar respostas diferentes para as mesmas perguntas.
Dever ser do tipo que não descarta, a priori, como erradas respostas que apenas sejam diferentes das suas. Em muitos casos, não há certo ou errado: há apenas o diferente!

Deve saber liderar equipes trans e multidisciplinares, ter sempre uma atitude de facilitador para que trocas e aprendizagens se façam. Deve ter uma atuação de empatia e acesso ao outro: só assim o valor de subsidiar esclarecimento de dúvidas, estímulo à interação e o compartilhamento se efetivarão.

Precisa ser um profissional com livre trânsito e acesso à Geração Y e conhecer de perto a matéria-prima e DNA de que sua instituição é feita. É preciso ser alguém que não apenas conheça, mas que faça circular atributos da cultura organizacional: valorizando-a e aprimorando-a tanto quanto possível a partir da experiência de todos.

Dever ter espírito curioso e interessado: ser humilde e reconhecer que aprende sempre e todos os dias. E mais do que isso: ser generoso em partilhar e distribuir o que sabe!

Deve ter profundo interesse pelo aprimoramento e aprendizagem não apenas de si próprio, mas de todos os que lhe cercam, tirando de cada oportunidade e pessoa o seu melhor.

De todas essas características, ser bom ouvinte é dos exercícios que o Gestor de Conhecimento deve procurar melhor desenvolver. Dar-lhe-á o sentido do respeito à experiência do outro.

Por trabalhar com Projetos de Memória Institucional é usual recorrermos à metodologia de coleta de depoimentos e isso nos dá sensibilidade e proximidade com a construção de outros saberes e outras perspectivas que informam o presente e engendram outros caminhos e possibilidades. Mas isso é assunto para um post inteiro…

Publicado originalmente no blog Pensados a Tinta

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