Carteiro_MadameMim

Por: Eliana Rezende

Em que ponto, em que rua ou travessa de sua existência seu carteiro parou?
Sim, aquele personagem que o visitava todos os dias, mas não com faturas de contas ou boletos bancários, cobranças várias, mas sim, aquele que lhe trazia notícias de longe?
Aquele que por anos a fio visitava toda a sua rua e conhecia cada morador por nomes, hábitos e caligrafia?*

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Incrível como o tempo e as tecnologias nos afastam de alguns personagens urbanos. O carteiro era destas figuras que por largos tempos eram esperados todos os dias de forma ansiosa num misto de muitos sentimentos. Às vezes havia euforia, risos, contentamento, outras tantas tristeza, preocupação, melancolia, saudades…

Sua vinda representava que alguém em alguma parte havia tomado tempo de suas horas e nos dirigido palavras… muitas carregadas de emoção. Algumas noticias chegavam acompanhadas de pequenos retalhos, detalhes, inserções: pétalas de flores, fotografias, marcas de batom, papéis coloridos, folhas secas,pequenos objetos, recortes de uma existência ou de um momento vivido.

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O tempo das escritas manuscritas perdem-se na história, e em alguns casos já não são nem mais referência de coisa alguma. O carteiro e suas cartas em papéis perfumados e coloridos povoam hoje mentes de poucos e em geral, tem em comum uma mesma geração. A mesma que colecionava envelopes, papéis, selos, canetas coloridas. Uma geração que sabia como ninguém o sentido da escrita de próprio punho e o significado de cunhar palavras com tinta sobre papel. Uma geração que entendia a escrita como um gesto de doação e entrega. Afinal, tempo, sentimentos, pensamentos, projetos levam tempo tempo de arquitetura e generosidade de doação.

Era este personagem que carregava em suas mãos nossos amores, segredos, saudades, esperanças, promessas, planos. Em pedaços pequenos, geometricamente cortados eram carregados em ordem numérica no crescer ou decrescer da ordem das casas distribuídas pela rua. A organização das cartas obedecia uma ordem toponímica e geográfica para que o enredo de histórias e lugares se dessem. Afinal eram histórias tramadas à distância que encontrariam numa toponímia qualquer seu desfecho e destinatário.

Apesar de organização antecipada e rígida, pois obedecia uma sequência de localização, nem por isso, deixava de saber o nome do remetente e destinatário. Chamava pelo nome e tinha a certeza de saber de quem se tratava.

Amigo íntimo de cães, senhoras, gatos, moleques e bolas. Tinha de driblar todos para conseguir cumprir sua função que era a de nos fazer chegar as mensagens que trazia.

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Sabia guardar segredos e zelava para que nunca uma carta encontrasse mãos erradas ou indevidas. Zeloso cuidador. Fiel guardador. Atento portador.

Em dias de chuva o cuidado era redobrado: afinal a água que vinha do céu não podia estragar sua preciosa carga. Se tivessem que ser molhadas que fossem pelo sal das lágrimas de contentamento ou tristeza de um destinatário qualquer, mas nunca por uma faxina de São Pedro pelos céus da cidade!

Com o seu andar percorria diferentes trajetos, muitas vezes sinuosos, em trechos que poderiam ser longos, incertos e até perigosos. Caminhadas de dias inteiros eram comuns e lugarejos em vilas e aglomerados dos mais distantes tinham a segurança de ser visitados por ele e sua mala de pequenas preciosidades.

Em sua mala à tira-colo havia também revistas, livros, informativos, encomendas diversas.

E ainda haviam os postais.

Ah…os postais!
Quanta imaginação e emoção provocavam.
Receber um era daqueles sinais de mais alta estima e conta. Afinal alguém distante em viagem de passeio ou negócio havia parado, escolhido, postado e enviado uma mensagem que vinha como imagem recortada de um sonho de deslocamento. Quantas gavetas e quantas caixas estes postais encheram por tantos lugares através do tempo. Ofereciam ao seu destinatário a possibilidade de simplesmente embarcar em trechos de belas histórias, em roteiros imagéticos que seriam em um encontro de retorno completamente detalhado e destrinchado com notas e explicações. Com sorte ainda ganhariam fotografias posadas trazidas pelo viajante. E para além de tudo traziam a escrita em próprio punho do emissor.
Em seu verso eramos agraciados com um carimbo de local e data e quase sempre um belíssimo selo. Uma composição para os sentidos e imaginação. Verdadeiros objetos de cultura material, e hoje quase extintos em seu sentido de troca. Únicos e especiais traziam a marca indelével do tempo e da composição de um remetente distante.
Perderam uso e interesse a partir da proliferação de selfies e demais registros digitais: rápidos, mas extremamente descartáveis e até impessoais. As possibilidades de ampla reprodutibilidade tiraram a aura do registro. Seguem apenas como mero instantâneo. Quem faz e quem recebe dificilmente será tocado, como ocorria com o postal trazido pelas mãos do carteiro.

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O postal era uma preciosidade que só nos alcançava graças às mãos e ao trabalho de nosso personagem carteiro.
Portador de tantas histórias miúdas, acontecidas como que a conta-gotas e dia a dia sentia-se feliz e orgulhoso de participar desta troca.

Às vezes chegava-nos urgente, com pressa: trazia um telegrama. Era comum quase esperar sua abertura para saber se haveria risos ou tempestades. A euforia e pressa do destinatário em geral não esperava o portão se fechar.
As palavras aqui eram curtas, cifradas e teriam que valer pela urgência na entrega.

Hoje os tempos são outros. Não sabemos nem o nome e nem a cara de muitos carteiros. As casas diminuíram muito e na imensidão de prédios e condomínios contam com a ajuda de caixas impessoais com números e chaves. Nunca sabemos quem por lá andou e em geral, o volume que nos chega passa muito longe de ser agradável ou motivo de memórias e lembranças. Apenas cumprem uma função logística de distribuição, onde o que conta é mesmo um número dentro de um escaninho ou caixa.

As noticias alcançam-nos por outras vias. Talvez mais rápidas e imediatas, mas com certeza sem a aura de tempo e cuidado dispendido em sua elaboração e destino.

Daí meu pedido tão simples: “Chamem meu carteiro: quero boas noticiais!!!”

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O carteiro como tantos outros que figuram como personagens urbanos tem encontrado muitas transformações ao longo do tempo, em em vários casos, simplesmente desaparecem no cenário urbano ou social.
Trabalhos de Memória Institucional podem resgatar tais personagens e suas práticas de trabalho e nos fazer valorizar tradições e saberes que muitas vezes só se alcançam através de relatos e memórias.

Possui em sua comunidade ou instituição trabalhadores/personagens que tenham esta relação com seu entorno? Gostaria de saber como valorizá-los e transformar tais registros em Patrimônio Cultural? Consulte-nos. Teremos imenso prazer em pensar um Projeto de Memória que melhor se adeque à sua demanda.

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* Post publicado originalmente no meu Blog, o Pensados a Tinta.
A inspiração foi do meu carteiro de infância que me acompanhou por toda a minha fase de adolescência até a vida adulta. Meu carteiro ficou na minha rua até se aposentar. Cresci, casei, mudei e nunca mais tive um carteiro para chamar de meu.

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One thought on “Chamem o carteiro: preciso de boas notícias!

  1. Oi Eliana,
    Realmente, hoje não temos mais o carinho que tínhamos por esse personagem. Antes da internet me correspondia constantemente com minhas amigas e primas e a ansiedade de escrever e receber minhas cartas era grande. Já sabia o dia e a hora do carteiro passar, ficava de plantão para saber se a minha carta tinha chegado. Até o carteiro ficava alheio a minha decepção, quando a carta não tinha chegado. Enfim, acredito que a ansiedade continua, mas pelas compras que realizamos pela internet. Não vemos a hora de chegar o nosso produto e desfrutar da alegria de receber pelo correio. Há uma outra ansiedade em receber notícias que é pelo wattsap, mas a espera é por um décimo de segundo…rsrs. Enfim, a memória dessas histórias são importantíssimas para a nossa sociedade, como construímos e transformamos os nossos meio de de comunicações.

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